12 abr 2019        História da Moda

Betty Halbreich: uma das primeiras personal shoper na história da moda

Betty Halbreich, Foto: IntotheGloss

“As mulheres com quem trabalho não adoram tudo o que escolho, mas a experiência de entrar no meu provador com hora marcada é um evento único e especial. As roupas com as quais trabalho como personal shoper (um título que nunca me agradou muito) são uma extravagância por si só – o preço de muitas delas é quase sempre caro demais para meus brios de moça do interior. Porém, o verdadeiro luxo do meu trabalho é o fato de a cliente saber, quando a ajudo a vestir um suéter ou puxo o zíper nas costas de um vestido, que escolhi aquelas peças pensando nelas”

Aos 91 anos, Betty Halbreich é uma figura única no mundo da moda. Há quase quatro décadas comanda o departamento de compras personalizadas – ou personal shopping, como Betty prefere não chamar – da loja Bergdorf Goodman, ícone do consumo de luxo na Quinta Avenida em Nova York. Betty é conhecida por não ter medo de abrir o jogo com as clientes. Já vestiu desde uma primeira-dama dos Estados Unidos até personagens de séries como Sex and the City e Girls, além das próprias estilistas que abastecem suas araras.

Em Um brinde a isso, seu livro lançado em 2014, Betty fala não só da tão atraente carreira, mas também do momento mais duro em que precisou se encarar no espelho: separada e com dois filhos, ela entrou em depressão e tentou o suicídio. Um emprego de vendedora na Bergdorf Goodman a ajudou a se reencontrar, porém seu talento para vestir os outros era inversamente proporcional à inclinação para as vendas. Realocada como personal shopper, ela oferece a partir de uma lista de fornecedores que cultivou ao longo dos anos, aos seus clientes que exigem atenção materna, na qual segundo ela, proporciona de várias maneiras. Além de ajudar o que as clientes devem usar, ela indica a melhor creche para os filhos, um lugar que lave os lençóis de linho à mão e os melhores chocolates que já comeu. Indicações de dentistas, organizadores de eventos, padarias e do que mais elas precisam. Suas clientes encontram nela uma fonte confiável de bom gosto e segurança. Também serve como uma espécie de confessionário, quando uma mulher entra no seu provador e tira roupa, entram os desabafos e os inúmeros pedidos de conselhos.

De acordo Betty, ela consegue ter noção do corpo de uma mulher só de olhar para ela, mas para entender sua personalidade, estilo de vida, gosto para cores e as fantasias que inventam para si mesma, elas precisam de uma conversa mais aprofundada e uma observação maior, o primeiro encontro com uma cliente, ela procura entender a profundidade e a extensão de suas vidas sociais.

Ela foi trabalhar pela primeira vez 40 anos, após a separação de Sonny, seu ex-marido, e seus filhos terem saídos de casa. O trabalho na loja lhe deu um motivo para levantar da cama todos os dias, escolher roupas para vestir e se despedir de sua única companhia, sua auxiliar do lar, Frieda. Ela começou como vendedora tinha pânico da caixa registradora onde deveriam constar suas vendas, para ganhar os lucros no fim do mês e por isso passava tudo para as suas colegas de trabalho, atitude que a manteve num ambiente amigável. A prática de compras personalizadas não era nova. Já existia em outras grandes lojas especializadas, como a Bloomingale’s e a Saks, e adicionava um verniz de luxo – o luxo da atenção exclusiva – à experiência das compras.

Vestindo um jaguar real que ela ainda tem, em Williamsburg, VA, por volta de 1950. Foto fornecida por Betty Halbreich para a Vanity Fair.

Trabalhando na loja, eu havia aprendido que era capaz de arrumar as pessoas como fazia comigo mesma. Não se tratava apenas de lhes mostrar a melhor blusa para um busto grande. Primeiro, ganhava a confiança das clientes e depois as ensinava a amarrar uma echarpe”

Betty pediu para ser tirada das vendas diretas e a deixarem fazer algo, criar um departamento ligado ao atendimento individual. Seu salário na época seriam 200 dólares por semana. O seu chefe a convocou para o departamento Givenchy para ajudar uma cliente importante. Um ícone de moda e estilo americano, Barbara Paley.

Barbara “Babe” Paley, para Vanity Fair, na década de 1950.

Betty mostra que o verdadeiro estilo de uma mulher não está impresso nos cortes, tecidos e etiquetas que ela veste, mas na história que ela tem para contar. Sua história é inspiradora.

A descrição da Bergerdoorf Goodman de acordo com Betty Halbreich

Em um elegante edifício em estilo mansarda, com uma fachada de mármore branco South Dover, coberto de fuligem da cidade, no terreno da antiga mansão Vanderbilt. Mesmo reformadas, as paredes com painéis e relevos em estilo francês exibem um charme antigo impossível de reproduzir em construções modernas. No cruzamento da Quinta Avenida. Rodeado pelos hotéis Savoy Okaza, Plaza e Sherry Netherland, era uma esquina suntuosa mesmo durante a década de 1970, quando boa parte da cidade estava entrando em decadência e abandono. A rua do luxo dos velhos tempos, com a Bonwit Teller numa esquina, a Tiffany’s na outra e a Henri Bendel um pouco mais acima da rua. Naquele tempo, as mulheres que faziam compras nesses lugares iam de meias-calças, terninhos, casacos de mink no inverno, luvas e bolsas elegantes. Do lado de dentro, a decoração estilo renascentista francês – paredes de mármores iluminadas por candelabros de cristal suspensos em cúpulas brancas decoradas com pinturas ovais em miniaturas – dava a impressão de que Maria Antonieta surgiria a qualquer momento para experimentar chapéus criados por Halston, o principal chapeleiro da loja. Sua sala se localiza no final de um longo corredor de provadores do terceiro piso.

Gabriela Oliveira
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