25 mar 2019        TV + Movies

A nova série da Netflix: Coisa Mais Linda

A Netflix lançou em seu serviço de streaming, dia 22 de março de 2019, Coisa Mais Linda, uma série brasileira, ambientada no Rio de Janeiro, no final da década de cinquenta, em uma época vibrante da cultura brasileira. Brasília ainda não existia sendo o Rio a capital do país. A cidade e a música, são os elementos fazem parte da série, tanto quanto, os personagens, se atentem as cores e planos escolhidos da cidade combinando com a época. Há de se observar o cuidado com o figurino, iluminação e cenário, o tom amarelado na fotografia que nos remete a época de ouro da elite carioca e a cor que envelhece as memórias.

Malu (Maria Casadevall), uma paulista que resolve se mudar para o Rio de Janeiro com seu marido e filho pequeno, para abrirem um restaurante juntos, chegando lá ela percebe que o seu esposo a abandonou e levou todo seu dinheiro embora. De família rica, seus pais são influentes na cidade que ela deixou pra trás, no Rio ela decide seguir em frente e abrir junto com sua nova amiga, uma boate, para celebrar a Bossa Nova e a sociedade carioca. Naquele momento, uma mãe solteira abrindo um negócio em plena capital do Brasil, não era bem visto na sociedade.

Malu saindo de São Paulo em busca dos seus sonhos no Rio de Janeiro, personagem de Maria Casadevall.

Adélia (Paty de Jesus) mulher negra e periférica trabalha para uma mulher branca e rica vivendo as diferenças sociais e raciais diariamente, num Rio de Janeiro desigual e elitista. Tem um relacionamento, com o músico Capitão, homem ausente que aparece no decorrer da série, para ilustrar sua vida amorosa conturbada. Divide os cuidados de sua filha Conceição com sua irmã mais nova. Após conhecer Maria Luísa, elas investem no plano de fazer dar certo o clube de música “Coisa Mais Linda”.

Adélia, personagem interpretado por Paty de Jesus, na inauguração do clube da música “Coisa Mais Linda”, ao lado de sua sócia Malu.

Thereza (Mel Lisboa) tem um relacionamento aberto com Nelson, após um grande trauma o casal resolve mudar de Paris para o Rio de Janeiro, Thereza trabalha como jornalista numa revista para mulheres, onde ela precisa ouvir do seu editor-chefe, que mulheres são emotivas e homens são muito mais focados, a única mulher que trabalha na redação, dividindo espaço com homens que escrevem o que as mulheres devem vestir no primeiro encontro, como tratar seu marido e receitas de culinária.

Thereza e Nelson, em uma festa do barco de seu amigo

Lígia (Fernanda Vasconcellos) cunhada de Thereza, casada com o irmão de Nelson, ela precisa lidar com a frustração de não seguir seu sonho em ser cantora e um marido agressivo e controlador, Augusto é um vereador, com uma mãe que esbanja dinheiro e não aceita a falência da família, reproduz machismo e acredita que o dever das noras é lhe dar netos e respeitarem os dias ruins de seus maridos, com paciência e submissão, isso incluí apanhar sem reclamar.

Lígia, personagem de Fernanda Vasconcellos no palco, cantando Bossa Nova

O dilema concentra na diferença entre, as mulheres que elas querem ser e as mulheres que os homens que as orbitam querem que elas sejam. Um convite a reflexão do que é ser mulher, o que é ser feminino e qual a força da nossa fragilidade e das nossas escolhas diárias, a busca pelo espaço e protagonismo na nossa própria história, numa sociedade machista, o caminho da autodescoberta em desbravar nossos sonhos e a conquista da nossa emancipação. A diferença gritante dos problemas enfrentados por Malu, mulher branca e rica abandonada pelo esposo, com as dificuldades de Adélia, mulher negra e periférica responsável pelo sustento de sua filha e irmã, numa sociedade grifada por características elitista e racista.

No Brasil, o início da década de 1950, foi caracterizado por um forte nacionalismo e desenvolvimento industrial. Marcado pelo trágico suicídio de Getúlio Vargas e a eleição de Juscelino Kubitschek. Houve o chamado “anos dourados” da classe média, reafirmando a importância da mídia e da indústria cultural. Foi inaugurada a primeira emissora de televisão do país, Tupi. Ocorreu a primeira Bienal de São Paulo, início da construção da nova capital da República, Brasília, projetada por Oscar Niemeyer. Brasil venceu sua primeira Copa do Mundo, na Suécia com o protagonismo do Rei Pelé e quatro anos depois seria bicampeão, no Chile, com Garrincha. Foi inaugurado o Museu de Arte Moderna, na cidade maravilhosa e nasce o estilo de música que até hoje, nos remete a cidade, a Bossa Nova, uma dos temas centrais na série. Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto foram os maiores representantes desse movimento.

O Rio de Janeiro imperava por mais de 180 anos como a capital do país, o período colonial cedeu lugar a uma metrópole moderna[i] e considerada a mais bela, em contrapartida, havia o contraste de bairros operários se multiplicando de forma desordenada, ruas sem calçamento, as formas de se divertir era com o rádio, torcer no futebol e samba. Com o grande fluxo de migrantes, se direcionado para as cidades em busca de colocação no mercado de trabalho, os morros foram o destino para a maioria que não conseguiam moradias condizentes com seus baixos salários. As comunidades foram delineando uma nova paisagem e acentuando os contrastes sociais.

A moda que marcou os anos 1950 foi definida em 1947 com o New Look de Dior de 1947. De extrema sofisticação, muito luxo e glamour, “anos dourados”, quando a alta-costura teve seu auge. Paris ditava as regras da moda, por meio de nomes como Christian Dior, Cristóbal Balenciaga, Pierre Balmain, Hubert Givenchy entre outros. O padrão estético do New Look eram saias rodadas e cintura bem marcada, elas chegavam a usar uma cinta bem apertada para dar esse efeito da tal “cintura de vespa”, [ii] nos pés salto alto e bico fino além dos chapéus e luvas para complementar. O objetivo era o resgate da feminilidade pós-guerra.

No Brasil a indústria têxtil estava a todo vapor, valorizada pela suas exportações e da atividade fabril durante a guerra, o tecido de algodão era um dos seus maiores produtos. O nascimento de boutiques e costureiros, sendo estes sendo precursores no país de uma costura de “autor”, um dos mais famosos, foi Dener Pamplona que desenhava e criava para a elite brasileira, ele gabava-se por ser criador da moda nacional. Onde surgem os questionamentos a respeito da autenticidade da moda brasileira, revistas e jornais era a maior vitrine pra moda, até então, a moda era ditada pelas mulheres da elite nacional que usavam grifes internacionais, mas agora o grande destaque seria para os colunistas que conseguiam divulgar fatos importantes valorizando a criação nacional. No último ano da década de 1950, foi lançada a boneca Barbie pela Mattel, trazendo um padrão para as jovens meninas da época, loira, alta e magra.

Na série há a festa de ano novo do clube de Adélia e Malu, elas festejam com um nome renomado no cenário internacional se apresentando no palco do Coisa Mais Linda e brindam a entra do ano de 1960 e a virada de uma década. Década que seria palco do fortalecimento dos movimentos de esquerda nos países do Ocidente, contracultura, conquistas feministas e movimentos civis em favor das minorias sociais iriam dar o tom para as reivindicações nos próximos anos. Foi assim que movimentos como os hippies, contrários à Guerra Fria e do Vietnã, surgem para encabeçar os ideais pacifistas.


[i] MANCHETE, revista, 22 de janeiro de 1955, p. 25.

[ii] BRAGA, João, História da Moda, uma narrativa.10ª Edição, Revista e atualizada. D’Livros Editora

Gabriela Oliveira
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