19 fev 2019        Fashion News

O adeus para o controverso Karl Lagerfeld

Foto Reprodução: Getty Images

Hoje faleceu em Paris, um dos estilistas mais famosos do mundo. O designer de moda e consagrado diretor criativo da Chanel e da casa de moda italiana Fendi, além de ter sua própria marca Karl Lagerfeld. Era uma das figuras mais respeitadas da indústria da moda, sendo responsável por moldar e lançar tendências. Após o seu não comparecimento no último desfile de alta-costura da label Chanel, em 22 de janeiro, devido a cansaço, já era dada a suspeita sobre sua saúde debilitada.

A sua história foi marcada por inovações, polêmicas e controvérsias. Com estilo distinto dos seus cabelos brancos sempre presos, óculos escuros e luvas. Ele evitava ao máximo que o público tivesse conhecimento sobre sua data de nascimento, tentava ocultar sua verdadeira idade. Fornecia informações contraditórias em inúmeras entrevistas.

Seu nome de batismo é Karl Otto Lagerfeld, nasceu em Hamburgo na Alemanha, em 10 de setembro de 1933, seu pai era um empresário bem-sucedido na Suécia e sua mãe era de Berlim, uma violinista que trabalhava com vendas de lingeries quando conheceu seu esposo, se casaram em 1930. Em uma entrevista à Paris-Match, em 2013, confidenciou que não gostava de ser criança, muito inteligente, aos seis anos sabia falar três línguas, alemão, inglês e francês. Devido a ascensão de Hitler, a família Lagerfeld se mudou para uma região rural e só voltaram para a cidade natal anos mais tarde, quando Karl já era um adolescente.

Chegou a Paris, onde a família tinha um escritório de importação e exportação aos 16 anos de idade para estudar, e tudo começou em 1949, quando acompanhou sua mãe a um desfile da Dior, recorda a revista francesa Closer. Estudou no Lycée Montaigne, no qual se formou em desenho e história. Em 1955, ele participou de um concurso de design, promovido por uma instituição internacional e foi contratado para ser assistente de Pierre Balmain, vencedor na categoria de casacos, e a partir de então começa sua história na indústria da moda.

Karl Lagerfeld como um jovem estudante de moda: Em 1954 ele ganhou o primeiro prêmio em uma competição de designers – e pelo casaco que pode ser visto nesta foto.

Sua trajetória profissional apenas em ascensão, após três anos trabalhando na casa francesa Pierre Balmain, ele ingressou na Jean Patou, grife da mesma origem que a anterior, trabalhou por alguns anos e saiu em 1960 para um período sabático, após viajar por diversas praias, voltou ao trabalho em 1963, começou a desenhar para casa de alta costura italiana, Tiziani, fundada por Evan Richards naquele mesmo ano. Foi freelancer em 1964, na marca francesa, Chloé até ser contratado oficialmente como diretor artístico da grife, em 1991.

Aqui no final de um desfile de moda, em 23 de Março de 1987, em Paris, ao lado da top model Ines de la Fressange.

Entrou na Chanel em 1983, como diretor criativo, o objetivo principal era de perpetuar o estilo lançado pela fundadora Gabrielle Coco Chanel, na qual havia falecido em 1971. Foi aconselhado a não aceitar a oferta: “Não encoste nela, essa marca está morta, nunca vai voltar.” Sua primeira linha lançada foi um resgate às décadas de 1920 e 1930, contando com referências do trabalho deixado por Gabrielle. Assumiu a grife à beira da falência, no entanto, ele foi capaz de trazê-la de volta ao sucesso, com modernidade e renovação, mantendo as características e o DNA da marca. Hoje ainda continua desejável, mantendo seu status de clássico absoluto, que jamais sai de moda ou perde seu valor.

Sua história também se entrelaça com a grife italiana Fendi, seu relacionamento com a marca foi mais antigo do que com a Chanel, foi diretor criativo desde 1965, a convite das cinco filhas do casal fundador da marca de luxo, modernizou a forma como as pessoas olhavam para as peças de pêlo, transformando-as em peças leves e delicadas. Lançou um livro em 2015, uma obra intitulada “Fendi By Karl Lagerfeld”, contando os relatos, entrevistas e memórias do estilista a frente da Fendi. Com as duas últimas grifes, tinha contrato vitalício e total autonomia.

Na década de 1980, ele escolheu a modelo Inès de la Fressange como musa da marca, a escolha foi por ela ser muito parecida com a fundadora Coco Chanel, com objetivo de resgatar a imagem da estilista. Inès foi a primeira modelo a assinar contrato de exclusividade com uma casa de alta costura, além de ter sido a primeira a tornar-se estrela famosa e popular na história da moda.

Renovou as clássicas bolsas da grife francesa, apesar de nunca terem deixado de serem sucesso e um sonho de consumo para as reles mortais e apreciadores de moda, Karl inflamou o desejo das consumidoras pelos ícones bags, a cada coleção com novos tecidos, tons e formas, lançou peças ousadas e incríveis não perdendo a essência. Sua reinterpretação pela icônica bolsa 2.55, Criada por Coco em 1955, lançada nos anos 1980, substituiu o clássico fecho Mademoiselle (retangular) pelo logo da casa, firmando os Cs interligados como uma instituição de moda por si só. Considerada como um investimento mais seguro do que o mercado de ações ou ouro.

Em 2015 fez história na Semana de Moda de Paris, sendo o primeiro estilista a comandar dois desfiles de alta-costura na mesma temporada (Fendi e Chanel). Criou sua própria marca em 1984, localizada no número 144 da Champ-Élysées, além de inúmeras parcerias, como a firmada pela grife Diesel, lançando uma coleção especial de denim ou com a fast fashion H&M, esgotando em dois dias os estoques após a divulgação, sendo um sucesso absoluto.

Karl e a Lilian num papo antes da abertura da exposição em São Paulo (2013) “The Little Black Jacket”

Lilian Pacce jornalista de moda, em seu canal no youtube, publicou um vídeo intitulado “Meu amigo Karl Lagerfeld”, contando sobre suas experiências jornalísticas com o estilista, numa delas, ele havia dado a informação que não viria ao Brasil porque seu seguro de vida não permitia, essa declaração repercutiu o mundo inteiro, sua relação com o nosso país se originou de uma estreita amizade com a ex-modelo e socialite Bethy Lagardère.[i] Com o tempo ele veio para o Brasil, em São Paulo, uma exposição da Chanel na Oca, no Ibirapuera, “The Little Black Jacket”, uma exposição itinerante que passou em 2013 no país da diversidade e multicolorido para expor fotografias, das musas e amigos próximos da label na “jaquetinha preta”  de maneiras próprias e únicas, todos fotografados por nada mais nada menos que o próprio Karl.

Além de ser apaixonado por moda, amava arte, arquitetura, dança, literatura,  música clássica e fotografia. Começou a fotografar em 1987, fazendo fotos para um material da Chanel destinado à imprensa. Dez anos depois, lançou um livro “Visionaire 23 The Emperor’s New Clothes”, uma série de fotos de modelos e celebridades nuas. Fundou a Lagerfeld Galerry em 1998, para dedicar-se exclusivamente a essa sua outra paixão, a fotografia.

Foi colaborador com algumas edições russas e alemãs da revista Vogue, trabalhou em um editorial para a Harper Bazaar, dirigiu campanhas publicitárias para as casas de moda na qual esteve a frente como o diretor-criativo e sua própria marca, publicou livros de fotos e arquieturas em parceria com arquietetos renomados, era proprietário da livraria 7L e da efitoria de mesmo nome, localizada no centro de Paris. Dirigiu curta-me “Era Uma Vez…” com a atriz Keira Knightley no papel de Coco Chanel, foi figurinista em algumas produções teatrais em teatros em Milão e Viena. Desenhou figurinos para as sequências do filme Callas Forever e De Salto Alto.

Desfile de inverno da Chanel que ocorreu em 2014, na semana de moda de Paris! O desfile aconteceu no Grand Palais, como sempre, mas dessa vez o kaiser transformou o local em um supermercado, que apelidou de “grand magazin” para a apresentação da coleção.

Ele sempre produziu desfiles de forma excêntrica e divertida, cenários como supermercados, aeroportos, praias e cassinos, foram pano de fundo de alguns trabalhos produzidos pelo “Kaiser”, com a objetivo de mostrar que a grife Chanel não se encaixava apenas em ocasiões formais.

Apesar de sua genialidade criativa e ter mantido por anos uma marca centenária viva, jovem e desejada para o mundo inteiro desde que assumiu, não podemos suas atitudes como pessoa, com seus erros e preconceitos a descontruir, frases polêmicas e afiadas foram sua marca registrada. Em 2012, ele disse sobre a cantora Adele “ela é um pouco gorda demais”, causando uma grande fúria no Reino Unido e ao redor do mundo. Desculpou-se após o episódio, e a cantora rebateu dizendo que é como a maioria das mulheres e que se sentia orgulhosa por isso, e não é que ela está mais que certa? Aceitação e amor-próprio nunca deveria ter saído de moda.

Em 2018, deu entrevista à revista “Número”, sobre o assédio em meio à denúncias na indústria da moda, ele comentou sobre as declarações sobre acusações contra Karl Templer[ii], dizendo que se você como modelo não queria sua calcinha puxada, não se torne uma modelo. Debochando da classe e declarando: “Juntem-se à União das Ursulinas, sempre haverá um lugar no convento. Eles recrutam, até”.

Karl disse ao jornal francês Le Pont que poderia renunciar a cidadania alemã por conta dos mulçumanos recebidos recentemente no país. Em meio a uma história rica e cheia de acontecimentos, inovações, surpresas e reinvenções, posturas inadequadas e comentários preconceituosos marcou sua biografia. Foi um dos maiores nomes do mundo da moda.

Karl e sua gatinha Choupette que já foi capa da Vogue Brasil em 2014, num editorial belíssimo com Gisele.

Há declarações suas sobre sua principal herdeira, sua gata, Choupette: “Entre outros, sim. Não se preocupe, há o suficiente para todos”. Também deixou claro que não gostaria de sepultamento, preferia que fosse incinerado e suas cinzas fossem dispersas com as de sua mãe e as de sua gata, caso ela morresse antes. Aqui fica um pequeno compilado de seus feitos como profissional e sua humanidade, um homem de outro século de atitudes questionáveis, porém com um legado para o mundo da moda inesquecível, não devemos santificar alguém depois de sua partida, apenas lembrar de fato o mais próximo possível de quem essa pessoa foi com todos os erros e feitos. Como citou Vivian Whiteman[iii]: “Tenho feeling que sua morte marca o fim de uma era na moda, não por si só evidentemente. Mas dizem que os designers importantes têm conexões inconscientes com o que vai na cabeça do tempo. Alguns se aposentam, outros, para quem a aposentadoria nunca foi uma opção, resolvem sair de cena de vez.”

De acordo com o CEO da marca, Alain Wertheimer: “Graças a seu gênio criativo, generosidade e excepcional intuição estava à frente de seu tempo, o que contribuiu amplamente para o sucesso da Maison Chanel em todo o mundo. Perdemos um amigo, mas todos nós perdemos uma mente criativa, extraordinária a quem dei carta branca no início dos anos 80 para reinventar”

Apontada como a sucessora de Kaiser, após ser seu braço direito.

Após sua nota de falecimento, a diretora de estúdio de criação da Chanel e braço direito do falecido Kaiser durante mais de 30 anos, Virginie Viard será a responsável pela maison e por manter o legado de Gabrielle Chanel, segundo comunicado da grife. Esperamos que ela consiga continuar a essência da marca mas lembrando que vivemos num mundo


[i] Betty nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais,  em 1949, foi uma modelo brasileira, radicada na França. Fez carreira nas passarelas internacionais na década de 1970, e casou-se com um dos homens mais ricos da França, o empresário francês, Jean-Luc Lagardère.Após seu falecimento em 2003, tornou-se herdeira de um império, que incluiu a montadora Matra e a editora Hachette, que publica, entre seus títulos, a Elle e a Marie Claire.

[ii] Diretor de criação da revista “Interview”, acusado de assédio por três modelos em fevereiro de 2018. Uma garota reclamou que ele puxou sua calcinha.

[iii] Vivian é uma editora e jornalista renomada no mundo da moda, produz conteúdo para a revista Elle e o Jornal Folha de S. Paulo, além de ser curadora e co-autora do livro de moda, de A a Z, do Publifolha, palestra e dá aulas sobre diversos temas desse mundo fashion.

Gabriela Oliveira
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